quinta-feira, 20 de maio de 2010

Peles urbanas


(para escobar franelas e ronaldo ferro)

acorda-me todos os dias
o canto soberano do bentevi
no seu palco matinal
logo acima da janela do meu quarto:
- a haste retorcida da tevê
enferrujada pela ação corrosiva
das chuvas químicas

então o opressivo
e odioso tigre da manhã
sumo sacerdote do sol do desamor
debruça-se sobre mim
e devora lentamente a minha alma
após lamber meus lábios pálidos
com sua língua de espesso silencio

meu coração pressente algo diferente
no silencio dessa manhã insegura
talvez a ocorrencia no muro da escola
de uma úlcera, hematoma ou fissura
é inverno, confesso que tenho medo
estremeço a cada indício de ruptura
meus olhos embrulham nojos e desejos
ante às promessas de utopias obscuras

sobre o amanhã dos desamantes
faíscam navalhas de esquecimentos
rastros de gosma das lesmas
cristalizam nas paredes envelhecidas
os atalhos noturnos das lagartixas
as manchas de urina dos ratos

finalmente explode a manhã urbana
em eczemas, ferimentos, ranhuras
infecções, câncros, gonorréias, pústulas
cicatrizes, rugas, fendas e suturas

estilhaça em plenitudes
de caminhôes basculantes
que vomitam o entulho
e a pele cancerosa da cidade
no meio da rua
no meio do dia.

akira.
19/05/2010.

3 comentários:

  1. Pô velho. Um pessimismo à la Augusto dos Anjos... Eclesiático!... (Falar nisso gostei de uns poemas desse Escobar)
    Muito bom Akira.
    Ei rapaz, quando vou poder ver o CD dos 60 anos de Sacha? Afinal de contas contribui artística e financeiramente. Sempre esquecem este trovador sem nada mais a ser sugado (já o fizeram de todo...) Digo que você amigo, é um dos que ainda mantém contato, fico agradecido.
    Faloe como posso obter o CD.
    Abração cara.
    Xicoleite

    Xicoleite, meu compadre
    Encaminhei o seu CD, o da sua filha e o do Welton Gabriel por intermédio do Sacha,
    que esteve em Irecê para batizar o filho do André Marques, se não me engano, foi em março. Então ocorreu algum desvio/desentendimento que fugiu ao meu controlee deixou-me com cara de bósta, constrangido que nem um rato molhado.
    Por favor, envie seu endereço que vou mandar via sedex.
    Um abraço do Akira.

    PS:. Voce é um dos meus poetas preferidos. Peço encaminhar-me alguns poemas
    para postagem no meu blog. Akira.

    Imersos na correnteza do rio da vida,
    Encontros e desencontros nos separam, mas...
    Ainda bem que temos meios de nos comunicar.
    Mais um belo poema, desses que tocam a alma...
    Obrigado por partilhar comigo.
    Um grande abraço.
    Assis.

    Seu poema é belo!
    De tão belo, me provoca arrepios e náuseas...
    Gosto das inquietações, temores, reviravotas....
    Parabens
    Um abraço
    Fátima.

    Rastros de gosma de lesmas,cristalizam nas paredes velhas.
    Isso tem muitos significados,talves,mais até do que você demonstrou.

    Francisco Tadeu.

    Belissima poesia!
    Amderson de Almeida.

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  2. Carlos Alberto- zelador do brooklin23 de maio de 2010 04:26

    Akira, este é um destes poemas que ficamos mil vezes maravilhados se o lermos mil vezes.
    Parabens.

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  3. Akira, tu passa lustramóveis na parede de madeiras sujas e maltratadas do tal dia-a-dia. E essa parede torna-se então porta para o éden diário, no qual até aqueles já contaminados pela bruteza cotidiana conseguem se amolecer.

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