sexta-feira, 5 de junho de 2015

jardim de hideko (23)


observo por horas
com olhos de detetive
mãos de filho bastardo
e rosto devastado
pelas ilusões da vida
e espinhos dos anos
o jardim que herdei
de modo impuro e vil


procuro identificar
ali na pétala da rosa
no perfume que exala
a haste do capim santo
talvez naquele tronco
derrotado de cerejeira
o kami de hideko

mas se bem a conheci
em seu amor vigilante
e precavido com o dia
hediondo do amanhã
seu kami fez domicílio
nas tatuagens brancas
das rugas madrinhas
do limão cravo

akira – 13/03/2015.

(foto de clarice yamasaki)

cara de feirante


1

macaco chinês
perguntei pra mim
porque seus olhos
são tristes assim?

porque não vêem
as pipas de papel
sonhos de meninos
voando alto no céu?

2

cara redonda de bolacha
nariz indígena de batata
cabelos de rosca macha
boca de rebite e tarraxa

ouvidos de ruas e relatos
sonhos de vinhos e pratas
olhos de águias e regatos
oh pobre coração de lata

3

cara de feirante
de vendedor de tomate
quiabo e repolho

mãos de borracheiro
ajudante de caminhão
e servente de pedreiro

semblante queimado de peão
por décadas excessivas de sol

olhos indígenas lavados
de mijos de cobras
e águas da lagoa verde

médio volante de estirpe destruidora
no santos do morro de triste memória

péssimo aluno
mal terminou o colegial

poeta por mero acaso
ou porque o destino
cometeu um descuido

luca


luca bastos veio
um dia à casa amarela
para conhecer adriane garcia

assim passou por mim
como um sol agonizante
a caminho do fim

é uma pena que só pude
pegar a cauda de sofrimento
e dores dos seus últimos dias

ainda bem que tive tempo
de constatar o calor infinito
do seu amor e generosidade

akira – 09/03/2015.

um bom lugar




tem um lugar
muito distante
dentro de mim

onde nem eu
consigo chegar
tão longe assim

um bom lugar
lá não existe
nada de ruim

é onde eu irei
quando estiver
perto do fim

akira – 09/04/2015.

carta para akira


fiquei comovido com as palavras do meu compadre
fernando rocha nesta carta. vindo de quem vem, um
dos escritores que eu mais respeito e admiro sobre
esta terra, esta carta é mais um presente que recebo
com humildade, de mais um amigo trazido a mim pela
poesia. gracias, véio.


Caro Akira,
Um poeta lá de Cubatão, criou uma página chamada viver a vida como um poema, após ler os seus livros: Oliveira Blues e Bentevi, Itaim, pude ver que embora não tenha nomeado tal estilo de existir, você o pratica há muito tempo. Pois textos como Canção pequena para ninar um menino morto, escrito em 1979, nos oferece a oportunidade de perceber que a sua poesia é conduzida pelo movimento seja das pernas ou das rodas que carregam seu olhar por paisagens e pessoas que para muitos são apenas mero pano de fundo, mas para você são protagonistas que suas palavras tentam afagar, como quem por meio do afeto descasca as máscaras e fantasias do social, devolvendo humanidade aos meninos de rua ou apara dedo mole e nóias.
No primeiro sarau da Casa Amarela, Arnaldo Afonso disse que há algo especial naquele lugar, mas como o lugar é parte do ser, acho que entendo o que ele quis dizer, pois na sua poesia obviamente que partindo da individualidade o caminho só permite ser percorrido em companhia, a referência aos amigos é contínua, você se dilui entre eles e ganha ao tornar-se múltiplo desde poemas dedicados diretamente a eles como para João Caetano e Sacha Arcanjo ou em dedicatórias para Escobar Franelas e Ronaldo Ferro, chama a atenção o movimento de criar referências ao invés de recebê-las digeridas.
No célebre poema de Poe, a renitência do corvo ao emitir never more, perde para o seu bem-te-vi, pois ao não cantar, ele deixa o silêncio, herança do avô, ecoar e em nosso tempo onde a paisagem sonora é ruidosa e ouvi-lo tem o mesmo efeito de um grito em meio à meditação de monges.
Desde o título a alguns poemas o bairro aparece em sua obra para além de descrições geográficas, tornando não o lugar, mas as sensações obtidas por meio dele em sentimentos universais, eu que sempre reclamei do gás da nitro, me recolho em minha ignorância sensitiva.
O tempo e os pássaros em ti, asas que querem abraçar o todo, paralisar os ponteiros e os dígitos do relógio. A poesia que namora o cotidiano e antes de ser transplantada para o papel, vive dentro dos sentidos e sentimentos do seu ser resistente, que não permite ser domesticada pela estética vazia.

foi dada a largada do casa de farinha autoral com sacha arcanjo


com sampa debaixo das águas de março fechando o
verão, muita gente não conseguiu chegar, sei disso
devido à quantidade de ligações e mensagens que
recebi no celular, para o casa de farinha autoral –
arte & culinária, mais um projeto cultural realizado
em parceria pelas casas de farinha e amarela, cujo
lançamento foi ontem com um grande e aplaudido
show de sacha arcanjo devidamente escoltado pelo
lendário feijãozinho da dona célia cabelo – que teve
triplicada sua fama ontem com certeza, além da
esperta e competente companhia de rodrigo marrom
na percussão. na verdade, na verdade, quem abriu a
noite foi a atriz e bailarina tatiana melitello que fez
belíssima performance de dança contemporânea, de
veemente solidão urbana. foi ótimo ontem, as casas
amarela e de farinha agradecem a presença de todos
que bentivieram para celebrar a alegria e a amizade,
e deixa aqui um convite para os próximos casa de
farinha autoral: 17/04, com o músico e cantor tião baia,
e 08/05, com um monte de escritores e poetas
mineiros da raberuânica estirpe dos baitas,erre amaral, 

arriane garcia, germano quaresma e sergio fantini,
dentre outros. hasta la vista, minhas comadres e
meus compadres.



andré e o gato


tsutae (avô): cadê o gato, andré? 
tsutae (neto):- shimiu, o gato shimiu, vô.